Litheratrupe – Força Total!

Estamos voltando com força total!

E cheios de novidades: participação em eventos, lançamento de antologia, projetos incríveis.

Na próxima semana (24/05) estaremos no Conexão Literária, evento realizado pela faculdade Anhanguera de Jacareí. E sim! Estaremos com nossos livros lá! Esperamos você para uma nos dar um abraço, uma boa conversa, falarmos sobre literatura… Será maravilhoso.

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Outra novidade que está enchendo nossos corações de alegria (e nossos dias de MUITO trabalho) é a nossa Antologia Litheratrupe. Será um livro recheado de poesias e contos de nossos escritores. Estamos em festa!

O lançamento será no Encontro da Mantiqueira, em Agosto/2017. Então fiquem ligados para acompanhar tudo de bom que está chegando.

 

 

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Litheratrupe na APVE em Setembro

Boa noite leitroopers!

Convidamos todos a conhecer um pouco mais sobre os símbolos nacionais em uma exposição cheia de cultura e literatura. Esperamos por vocês! Litherabraços!

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Litheratrupe no Encontro na Mantiqueira

Queridos Leitroopers!!

O fim de semana foi agitado para o pessoal do Litheratrupe. O primeiro encontro na mantiqueira foi simplesmente fantástico! Foi uma festa linda, repleta de boas energias e muitas emoções. Todos estavam engajados em fomentar a literatura e incentivar os novos escritores. Fizemos declamações de poesias na tenda, tivemos o prazer de receber a geladeira do saber com livros para doação, fizemos sarau a La Vinícius de Moraes, dentro de uma banheira cheia de textos e sonetos.

Tivemos também o lançamento dos livros dos troopers Manoel Jurema, Drika Yar, Karina Muller, Suélen Cristoli, Lili Oliveira, Mara Débora, Andrey Bulgarin e Lya Gram.

Uma coisa interessante: As crianças se divertiram muito com a máquina de escrever que deixamos lá, além de conhecerem como funciona o mimeógrafo. Elas também foram ensinadas a fazer corujinhas de rolo de papel higiênico e receberam o delicioso livro da Jaque – Sonhos de Dançarina, escrito por ninguém menos que Rita Elisa Seda.

Recebemos também a presença dos alunos da escola EEEI Professor Nelson do Nascimento Monteiro, que abrilhantaram nossa tenda com o lançamento do livro 13 Nuances organizado pela maravilhosa Cleire Duarte.

Vejam abaixo as fotos desse dia especial e festivo:

 

 

 

 

 

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O sonho por Drika Yar

O sonho é ilusãoDevaneios do coração
Inquieta excitação
Contida entre o bom senso e a razão

A utopia é acreditar
Que existe livre pensar
E que não vão te julgar
Se você ousar se expressar.

Não que você deva escutar
O malicioso murmurar
Daqueles que passam o dia a twittar

Mas cabe ressaltar
Que se muito a faca esmurrar
A ferida pode nunca cicatrizar.

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Litheratrupe no primeiro encontro na Mantiqueira


O LITHERATRUPE nasceu na oficina ‘O Poder das Palavras’ que há mais de um ano desenvolve livros-objetos, foi no Cine Santana, no Rancho do Tropeiro, na APVE e no Plenamente.

Fizemos uma exposição, no ano passado, na EMBRAER. Este ano, teremos um espaço no Encontro na Mantiqueira – Literatura em Foco para expor nossos trabalhos:

Livros artesanais feitos somente com material reciclado, fomentando o reaproveitamento de várias embalagens que normalmente são descartadas ao lixo diariamente.

Livros mimeografados, uma repaginação da geração mimeógrafo, com algumas intervenções sinestésicas. Uma nova maneira de fazer literatura.

Estamos em um período de recessão monetária brasileira e viemos inovar… ou melhor, readquirir os antigos valores: datilografar os textos, mimeografar os livros, marcadores manuais,  confeccionar os livros artisticamente, ficando cada um deles como peça única, magia artesanal. Usando objetos fáceis de encontrar.

A não digitalização… ao invés de banners teremos estandartes e cartazes; ao invés do formato tradicional de um livro, o reaproveitamento de embalagens; ao invés de uma estante, uma geladeira customizada; ao invés de levar para a gráfica, escrever em casa.

Se você quer fazer livros objetos ou livros artesanais, venha conhecer o Litheratrupe. Termos uma grade de atividades, para que você escolha o que melhor lhe interessa.

Veja algumas fotos do evento realizado na APVE e no Plenamente:

 

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Folhas de Relva – À Walt Whitman por Lya Gram

Fostes humilde como as folhas de relva

Estas que se curvam ao furor do vento.

Mas não te quebraste diante das injustiças

Nem te deixaste pisar

Pois, por mais que tentassem,

Não conseguiriam encostar em alguém

Cujos passos se erguem aos céus.

Fostes uma alma cheia de luz

Paralisaste de tanto amor

E se eternizaste como tem que ser

Com quem vive como irmão

No íntimo e na Terra.

És lembrado ainda hoje

Mesmo morto, mesmo ao pó

Pois deixaste tua parte mais viva

E mais intensa.

As tuas folhas de relva não secam e

Não perecem ao sabor do tempo.

Ao contrário, elas ganham força

E espalham-se na diversidade de interpretações

Dos tantos admiradores que

Ousam ler a tua alma.

Tu não nasceste de um ventre qualquer…

És filho dessas folhas

Tua vida começou ali.

E depois vibrou tuas canções

Aos tantos capitães que te habitaram

E que agora descansam

No abraço da relva

Que tanto te fez feliz.

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Conto de Natal #6

O sonho de João                                        

por Lya Gram

João estava sentado no banco da praça na noite de Natal, contemplando as janelas das casas decoradas com luzes piscantes e seguindo com os olhos a movimentação das pessoas que ali confraternizavam. Viu o tio brincalhão “roubar” o nariz do sobrinho arteiro, logo depois, os primos que se juntavam para jogar cartas, as mulheres desfilando umas para as outras os lindos vestidos, pratos e pratos de comida se juntando na imensa mesa, bichinhos de estimação com gravatinhas e acessórios natalinos, crianças sondando a chaminé e acompanhando o relógio ansiosas pela chegada de Noel, que se arrumava no andar de cima.

Após algum tempo, João começou a refletir…

O que significava tudo aquilo senão a ostentação de alguns, cuja condição financeira garantia presentes e mesa farta? Ficam ali, horas e horas jogando conversa fora, fazem dieta o ano inteiro para estravasar no Natal, dão mais e mais brinquedos para essas crianças que devem estar com o baú cheio, enriquecendo desproporcionalmente os ricos e aumentando a distância dos pobres. Onde está Jesus nisso tudo?

Distraído e remoendo tantas indagações, nem percebeu outro homem se aproximar. O homem pediu licença, sentou-se ao seu lado e disse:

– Apreciando o milagre deste dia?

Sem entender direito, João responde com outra  pergunta:

– Milagre?

O homem, que parecia feliz e sereno então explica:

– O milagre da união e da fraternidade! É uma época em que as pessoas por um tempo esquecem-se de si e das atribuições pesadas para simplesmente estarem com as outras. Veja a tia temperando a salada que a sobrinha lavou. Olha o avô chegando com o tender, a nora com um prato de sobremesa, o genro preparando o suco com as laranjas que seu filho ajudou a colher. Todos dividindo as tarefas e contribuindo para um lindo evento!

João ficou alguns segundos calado, mas não conseguiu conter a sua opinião a respeito do comércio na época do Natal:

– Ora, pode ser verdade o lance da união, mas você não acha desrespeitoso esse comércio exagerado? Essas crianças têm de tudo, não precisam de mais nada, e as outras como ficam?

O homem com feição amorosa e voz suave então lhe responde:

– Esse é o momento em que eles se dispõem a realizar sonhos alheios. Decidem fazer o possível para alcançar o sorriso pleno de seus filhos. Trabalham o ano inteiro fazendo economias para estarem preparados para este momento. É um amor puro e realizador. E em algum momento chega a hora das crianças abraçarem sonhos alheios, doando seus brinquedos a outras crianças. Percebe a corrente de bem passando de pai para filho?

Mas João insiste:

– Não é egoísmo doar coisas usadas? Se eles têm condição de dar brinquedos novos para os filhos, por que não fazer o mesmo para as crianças pobres?

O homem então arranca uma flor da haste que estava perto do banco, a entrega a João e diz:

Até o momento você não tinha esta flor nas mãos… Você a jogaria no lixo pelo fato de estar fora da haste? Nenhum ato de amor deve ser ignorado. Cada um tem seu tempo para maturar a respeito do amor. Não são brinquedos novos ou velhos que fazem a diferença, é o ato de doar que deve ser exaltado!

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João pensativo girava a flor com os dedos, e com um tom menos agressivo questionou:

– E essa mesa exagerada? Tanta gente passando fome e eles esbanjando!

Eis que nesse momento, o patriarca da família que celebrava na casa à frente, abre a porta e caminha até os dois homens sentados oferecendo-lhes uma marmita com tudo o que havia na mesa da ceia e desejando-lhes um feliz natal.

Os dois agradecem e o patriarca retorna à casa.

O homem sentado ao lado de João, segurando cuidadosamente a marmita lhe diz:

– Aquele que semeia pouco também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura também colherá fartamente (2 Coríntios 9:6). Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a Vossa Igreja. O Pai sempre se encarrega de fazer as coisas acontecerem  corretamente. Cada um a seu tempo, saberá agradecer as bênçãos recebidas. E não se engane, todos podemos fazer a nossa parte!

Então o homem se despede de João e sai caminhando até desaparecer no horizonte da rua.

João extasiado com tantos ensinamentos nem percebeu o quanto estava mergulhado em si, e na hora que deu conta, se viu obrigado a correr atrás do homem para agradecer-lhe e perguntar-lhe o nome.

Em meio ao parque público, eis que João encontra o homem a reunir mendigos. Eram tantos que nem sabia dizer. João foi aproximando com semblante curioso e antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, o homem agarra-lhe o ombro, fecha os olhos e pede que todos ali façam o mesmo.

O homem então profetiza bençãos de saúde, paz, harmonia e fé a todos os que necessitam.

E ao abrir os olhos, todos estavam diante de uma fartura enorme proveniente de apenas duas marmitas que estavam ali depositadas.

João perguntou:

– Como o senhor fez isso?

Então Ele respondeu:

Nós fizemos!jesus banco

Nesse momento João desperta de seu sono.

E após o sonho, João que há muito tempo não comemorava o Natal por conta de suas antigas convicções, decide adquirir uma árvore de Natal, lâmpadas, presépio e fantasia de Papai Noel, para que a partir dali, o nascimento de Jesus tivesse as merecidas pompas e fosse motivo de União, Partilha e Alegria.

 

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Conto de Natal #5

Maria e o Tapeceiro

por Karina Müller Rufino

Mais um ano ia se findando sem sinal de boas notícias. Tempo difícil de perda para Maria. Já fazia alguns anos. Aquele cinza no olhar que não havia quem pudesse tirar.

A casa, os móveis, as cortinas, tudo sem vida e brilho algum. Casa sem ninguém é só parede e teto, não tem serventia. Casa de verdade tem gente falando e comendo. Briga e pazes quase ao mesmo tempo. Risadas, bolo pela metade, torneira pingando, varal cheio, toalha molhada, fogão sujo. Mas, Maria estava só, mais um ano. A janela mostrava seus dias passando sem alegrias quetapeceiro ela não queria mais ver, nunca abria as cortinas.

Ficou ali, encerrada na tristeza. Ele tinha partido para nunca mais, pelo menos nessa vida. E quem pode prever esses acontecidos? Mas, como doía! Dor latejada sem fim. Poucas coisas mudavam seu humor, e pouquíssimas a deixava feliz, um gole de café bem quente, passado na hora – e bordados. Entrelaçar as linhas em um vai e vem de laços e entrelaces acalentava seu coração partido. Um café forte e bem quente abraçava a frieza da solidão. Mas, para que ela servia agora?

E assim passava seus dias, bordando, tecendo, criando laçadas coloridas entre goles de café quente em seu mundo em branco e preto. Mas, nessa vida quem sabe de tudo que vai acontecer? Na verdade sabemos é muito pouco sobre os acontecidos. Enfim, ela não sabia, mas aconteceu. E foi de repente.

De repente para Maria, porque para o Grande Tapeceiro foi mais um ponto em seu enorme e quase infinito bordado. Sim, Ele é um exímio artesão e tece cuidadosamente a tapeçaria da vida de cada um com divina precisão. Seus dedos de ouro, lá na cidade celestial, trabalham em todos os tapetes que permitem o seu árduo labor. Fios, tramas, nós, pontos, às vezes duvidosos, o tempo passa e com ele mais um trecho desse entrelace que muitas vezes não compreendemos – pois às vezes fica tudo tão emaranhado! Não há quem entenda aonde irá chegar.

Voltemos à Maria:

Em uma tarde nublada e cinza como todas as tardes de Maria, alguém bateu à porta. Era uma jovem com uma criança nos braços. Vizinhança que não parava de mudar. Maria nem bem guardava uma feição, já havia outra no lugar. A moça, encabulada, pedia açúcar para a mamadeira da menina que, nos últimos tempos andava abatida com uma tosse persistente.

Pequena ainda, dois anos no máximo.

Leite com calda de açúcar queimado aliviava o mal estar, já que dinheiro para remédios era pouco, quase nada. E a moça, mãe devotada, explicava com detalhes que o tal leite com açúcar a fazia feliz, aliviava os ânimos. Maria se surpreendeu consigo mesma, quando olhou para a menininha e, com um sorriso furtivo, confidenciou:

_ Comigo funciona com café!

Algo naquela menina ensolarou sua alma e a fez lembrar-se de sorrir outra vez. Fazia tanto tempo! Enquanto pensava entrou às pressas para buscar o açúcar. Que a vizinha batesse sempre que necessário, recomendou. Lembrou de como era com José, sempre sorridente por minúcias, por quase nada. Gostou de ressorrir. Até lembrou que o Natal se aproximava e, na manhã seguinte, enquanto bordava, se pegou pensando em algum motivo infantil para a menininha da vizinha. Parece que tinha acordado para as alegriazinhas da vida outra vez.

_ Uma vidinha tão recém-chegada passando necessidades!, pensou.

Resolveu costurar para ela algumas mudinhas de roupas. Vestidinhos bordados, uma fita para o cabelo. Pensou em seus filhos há tempos já crescidos e caídos no mundo – trabalho no estrangeiro, família longe em outro estado… E ela ali, voltando a se preocupar com meninices e cuidados com crianças, as suas já tão crescidas e independentes.

Gostou de reviver.

Se aproximaram as vizinhas. Mãe e filha sem pai. Ela sem o marido. Marcaram a ceia natalina juntas – um assado que perfuma a casa e um arroz colorido já era o bastante para a data. Desempoeirou a árvore de Natal.

_ Criança precisa de bolinhas de Natal e imitação de neve, um pouco de brilho e ilusão, meditava.

Mas, quem se via admirando a antes tão exuberante árvore era ela mesma. Estrela dourada na ponta… O Presépio! Na outra manhã virou caixas e sacolas em busca dele. E achou! O Cristo um pouco descorado, um pastor lascado na mão do cajado. Não importava! Ainda era um presépio! Montou embaixo da árvore com festão verde metálico circulando a cena de Belém. O menino! Nascia todo ano e ela ali, encarcerada, na sombra de sua perda. Entendeu porque o menino nascia outra vez e outra e outra…

Bordava e pensava – tinha tanto a fazer agora! Os preparativos, o tempero do assado, os presentes… Para a menina um vestido branco bordado de florzinhas vermelhas miúdas. Para a moça uma faixa para o cabelo bordada com rosas mais sóbrias. Também ganhou o seu, um espelho ornamentado.

A ceia de Natal, a primeira desde a partida de José, aconteceu como deveria. Cheiro de assado, conversas até bem tarde e desembrulhar dos pequenos presentes. Música! Risadas, casa iluminada com portas abertas até bem tarde. A casa revivia também, junto com ela.

Janelas e cortinas abertas, sol batendo no tapete da sala, música, panelas fumegando e bolos no forno.

É que o Tapeceiro trabalha pelo avesso. E quem olha assim, de relance, até acha que está tudo perdido. Mas, quando se olha o direito do tapete consegue-se, enfim, compreender as voltas, entrelaces e laçadas desse maravilhoso artesão. Maria se pegou pensando Nele, o grande bordador sempre a surpreender. Sim, naquele Natal teve um vislumbre do lado direito de seu tapete. Sua vida continuava e ela precisava seguir em frente. O emaranhado de fios embaraçado começava a fazer sentido enfim. Tinha que viver ainda, e deixar o menino nascer em sua vida outra vez.

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Conto de Natal #4

O NATAL ENCANTADO

por Mariane Helena

Certo dia passando em uma praça do centro da minha cidade, me deparei com um senhor com olhos marejados sentado em um banco antigo, castigado pelo tempo, ali estava contando uma história, que deixara um pequeno menino em aparente situação de abandono. Os olhos do menino brilhavam! Ele estava totalmente mergulhado na história daquele senhor, de voz branda e cansada.

Essa situação tão exótica me fez diminuir o ritmo das minhas passadas, e retornar para ficar mais próxima para observar melhor.

Essa situação tão exótica, no meio da cidade, nesse mundo caótico, justo no fim de tarde, horário de rush. Enquanto muitos correm de um lado para o outro, tropeçando em sua própria rotina frenética… Não há tempo para olhar ao seu redor!

Aproximei-me e sentir algo diferente. Naquele ambiente simples de um surrado banco de praça, alguém doava um pouquinho do seu tempo para ouvir o outro, para compartilhar o que a vida lhe deu. Não sei dizer, mas algo me emocionou! De onde eu estava só via o distinto senhor mover os lábios, com olhos visivelmente emocionados. Mas, é como se uma áurea mágica me envolvesse naquele contexto.

Venci a vergonha, me aproximei mais, e pedi para sentar-me e ouvir também a história. O senhor elevando as mãos ao rosto para secar as insistentes lágrimas que pela sua face escorria.

Com a cabeça, movia lentamente, eis um sinal de aceitação. Não ouvi a história toda, mas o pouco que ouvi mudou a minha vida! E é ela que lhe conto hoje:

Numa cidadezinha qualquer do interior, morava em uma praça, ao pé de um flamboyant majestoso, diziam centenário, morava Clara. Que como muitas crianças sofrem nas ruas frias, sem nenhuma proteção… Mas Clara era diferente!ilustracao mari 2

Ela apresentava ter seis aninhos. Uma pouco mais de um metro de estatura, miúda, sempre com o mesmo vestido rodadinho surrado pelo tempo, esgarçado… e bem encardido. Clara nunca foi vista com ninguém, nenhum adulto, ou quem quer que seja. Na cidade ninguém sabe como ela chegara naquela praça, nem mesmo há quanto tempo ela estaria ali. Só tinha algumas folhas e giz de cera, sua companhia era seus desenhos e uma boa sombra da sua árvore-moradia.

– Sempre passava por aquela praça, mas com a pressa de um professor, recém-formado, que para se sustentar conciliava duas escolas.

Era final de ano, e junto com ele, o término do ano letivo e minha correria diária esvaem-se. Continuava a histórica.

Incomodado com a presença daquela menina tão desprovida de tudo e mesmo assim tão alegre, com seus desenhos? Um encanto lúdico de saltar aos olhos. Durante um café numa padaria ao redor daquela praça e numa conversa de ocasião perguntou sobre a menina.

Foi nesse dia que conheceu o nome dela.

– E não haveria um nome mais vai propicio, pois nela havia uma luz nítida a todos. O único momento que um sorriso espontâneo apareceu por dentre as lágrimas daquele homem tão cativante.

A história era tão intrigante, que aquela conversa toda girou em torno de Clara. O balconista lhe disse entre um cafezinho e outro, que Clara não largava do papel e seu giz de cera o dia todo! Ele mesmo passava sempre por lá, para levar mais papel… um lanche. Pois ela nada pedia a ninguém, não trabalhava no sinal, nem ao menos se mostrava sofrida perante uma oportunidade de conseguir alguns trocados. Realmente pra mim tudo era algo inédito e simplesmente surpreendente! E atenta e ansiosa mantinha meus olhos fitos nele.

Saí de lá perplexo com tudo o que vi e ouvi! O Natal estava tão próximo… Tocado por toda aquela situação, imaginei: ‘toda criança quer brinquedos, ou o sonho realizado de ver o papai Noel. Mas, aquela menina nada tinha!’

Não me contive e ao entardecer, fui até lá. Ao abordá-la fiquei abismado! Cheguei com a intenção de saber o que ela pediria ao Papai Noel nesse Natal. Sai de casa realmente preparado para comprar o que quer que fosse para lhe amenizar a tristeza de passar o Natal no frio das ruas… Sozinha! Dizia aquele senhor que até hoje não sei o nome, mas em suas palavras havia tanta graça apesar do seu calado sofrimento ao retratar tudo aquilo para nós, então também me desmanchava em lágrimas que até então, elas caiam por empatia com o sofrimento que imaginei que alguém tão pequena tinha que suportar.

Questionada, Clara disse em meio a sorrisos para seus desenhos coloridos e olhinhos brilhando para eles como um encontro de amor com aquele frágil papel:

– Moço, não preciso de nada! Não quero nada não! O Papai Noel é meu amigo e vem me visitar todos os dias quando a lua apareci láaaaa… no céu. Por isso que eu torço para o sol dormir cedinho, que o dia apague logo para me encontrar com ele! Entusiasmada dizia a ele, a pobre menininha.

Embasbacado, se afastou dela emocionado e admirado com tanta doçura em meio uma realidade dura e de total abandono… Não se contendo ao imaginar quem concedia a ela noites tão lindas ao findar do dia. A maioria das crianças tem medo de escuro.

Ao me virar frente a ela, mesmo ao longe, caiu ao chão de joelhos! Estava fascinado! Estarrecido, por achar que os seus olhos o enganavam e que aquela cena não podia ser verdade.

Lá estava Clara ao pé do solene flamboyant, e seus desenhos de uma forma surreal saiam do papel ganhando vida! Dançavam e brincavam com ela. Tudo que sua imaginação podia projetar no papel ele conseguia tornar real todo anoitecer.

Como os outros, eis que o Papai Noel chega. Com um vovô amoroso, abraçava a menina, dava comida em sua boca. Com elas em seu colo contava histórias pra ela dormir. Em meio aos sussurros do soninho da pequenina, jurava-lhe em branda voz:

– Eu sou Papai no Noel todos os dias e prometo a você, todos os dias velarei o seu sono, realizarei os seus sonhos e trarei presentes segundo o seu coração, por tanto nunca terás fome!

ilustracao mari1Atônica, e sem contar a torrente de lágrimas, demorei alguns minutos para cair em mim, o mundo em minha volta parou! Percebi como sou pequena perante a fé inerente em toda criança. Onde a minha se perdeu? Porque perdi a capacidade de sonhar e realizar?

Compreendi então, que não preciso de nada que sempre persegui para encontrar a felicidade… Está tudo em mim! E carrego a certeza de que nunca estou só, e se, meu coração merecer todo dia será Natal!

Há momentos em que a realidade não é nada além de dor. E para escapar desta dor, devemos sair da realidade.

Relatava ele com voz embargada.

 

 

 

 

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Conto de Natal #3

O Dia Presente

por Andrey Bugarin

Conto Andrey - Imagem Azul

 

O som das cordas de tripa da ave fogo-celestial revestidas de aço, amplificado pela caixa acústica da madeira de um único galho da árvore pauis-do-sul, formava uma melodia sublime para aqueles que a quisessem escutar. Nessa época do ciclo planetário, nossa sociedade aceitava de bom grado a herança cultural que, de tão antiga, já não havia quem precisasse sua origem. Quiçá a aceitemos pelo estado sublime que provoca na alma da maioria de nossos seres.

A regra é deixar-se abraçar por esses Espíritos que brincam por entre nossas florestas e invadem nossas casas, contaminando-nos em seus abraços a abraçarmos os nossos. Dizem as lendas que os mais antigos contam que a sublime alegria sem causa espalha-se como uma epidemia através dos abraços, posto que um ser contaminado contamina outro, ao abraçá-lo. Essa é sua forma de transmissão. Cientistas argumentam ser um vírus mais anterior que o período pré-Cognitivo, enquanto os xamãs afirmam ser a expressão máxima de nosso planeta agradecendo o respeito mútuo. Eu acredito que de alguma forma em nossa cultura, quer seja pelas informações de nosso ácido tezoxitribinucélico, quer seja pela sua perpetuação através dos ensinamentos orais e práticos, de alguma forma nossa cultura cria essa consciência onisciente que envolve a todos, ou a maioria. Somente quando as cidades-aldeias celebram o Natal, a fogo-celestial revive através de suas tripas em música! Elas sempre fazem seus ninhos na pauis-do-sul e por isso, quando uma dessas aves deixam de cantar, o galho de seu ninho é manufaturado em caixa acústica e a música da ave continua permeando o nosso mundo, tão bela quanto era em vida. A comunhão perfeita da ave com a madeira remanesce e o regozijo é pleno!

– Papai, perguntou minha filha caçula, porque todos compram o que não precisam no Natal?

– Como nós estamos indo fazer exatamente agora, minha filha? Respondi-lhe enquanto encostava a porta e saíamos para caminhar até a feira. Nessa época, diversas bancas novas eram montadas com os mais exóticos produtos.

– Sim, papai. Nosso planeta não nos agradece sempre que ele termina vivo mais uma corrida espacial em torno do nosso sol? Se comprarmos o que não precisamos, não mataremos nosso planeta? Eu não quero que ele fique triste…

Entendi a preocupação de minha filha ao lembrar-me dos temas que ela estava estudando no centro educacional. História Ancestral. Houve um período que nossos antepassados quase mataram nosso planeta por pensarem que seus recursos eram infinitos, infindáveis! De fato, interagimos com o planeta apenas transformando sua matéria-prima em outra. O único problema disso é a simples consequência de que chegaria o dia em que teríamos transformado toda uma classe de matéria-prima em insumos. A nova matéria-prima, então, seria o lixo produzido com tantos produtos. Precisaríamos aprender a transformar o lixo. Contudo, o ponto de equilíbrio de todos os ecossistemas teria sido alterado abruptamente e colapsariam. Estudiosos apontaram que levariam milhares de corridas espaciais até um novo ponto de equilíbrio ser alcançado para sustentar formas de vida complexas novamente. Dizem, inclusive, que isso já ocorreu no passado remoto do planeta. Escondidas nas entranhas do planeta estão evidências de que uma espécie capaz de se organizar socialmente já viveu em quase todas as terras desse planeta…

– Ora, filhinha, respondi-lhe enquanto caminhávamos, é um costume saudável para todos não consumirmos mais do que precisamos. Abrimos uma exceção no Natal por dois motivos bem simples: primeiro, mesmos os excessos do Natal não são suficientes para esgotar as reservas do planeta, dado que não somos uma população tão numerosa assim; segundo, esses excessos trazem a possibilidade do diferente! Existem um sem-número de artesãos sazonais que produzem apenas para o Natal. É uma oportunidade de qualquer habitante expor suas ideias e essa variabilidade fantástica possibilita avanços…

– Papai, ela me interrompeu, o que é sazonal?

Dei-me conta da empolgação de meu espírito e de como os conceitos que eu lhe explicava talvez fossem muito abstratos para sua idade.

– Sazonal, querida. É algo que ocorre apenas num determinado período do ano. Mas, você entendeu minha resposta?

– Acho que sim, papai! Então vamos logo ver o que tem de mais exótico nesse Natal!

– Vamos! Dessa vez, iremos à feira comercial da Beira da Floresta. Precisamos subir à copa aeroportuária. Você já está na idade de aprender a voar!

Nossas cidades são organizadas dentro dos próprios ecossistemas do planeta. Eu e minha família vivemos dentro de uma floresta com moderada precipitação de água. Algumas árvores milenares deixaram-nos esculpir casas em seu tronco. Esses lugares são tido como sagrados, pois promovem a comunhão entre nós e o planeta. O fluxo de energia nesses lugares é capaz de equilibrar qualquer organismo. Nem todos organismos, no entanto, precisam dos mesmos elementos e menos ainda nas mesmas intensidades. As árvores necessitam toda a precipitação de água que puderem encontrar, ao passo que nós precisamos de quantidades mais moderadas e contínua. Modificamos o ecossistema de maneira a adequar nossas necessidades pelo o que a terra oferece, sem, no entanto, negligenciar as necessidades dos outros seres. Manter o ponto de equilíbrio do mundo dessa maneira garante a nossa perpetuidade.

Sintetizamos materiais cerâmicos para compor os abrigos que nos protegem de predadores, mas utilizamos uma tecnologia que controla a opacidade das paredes. Durante o dia, o próprio sol ilumina nossas casas. À noite, a maioria de nós dormem. São poucos que precisam de luz artificial. Além do mais, há vivências que se tornam muito mais interessante à luz natural da noite. As estórias para dormir que contamos a nossos filhos não são pré-fabricadas por outra mente e gravadas para todos; preferimos utilizar a biolumiscência dos animais para desvendar mistérios mais complexos. As estórias de dormir, sem luz para ler, são contadas sempre a partir da imaginação vívida das mães e pais. As mudanças, sejam propositadas ou por esquecimento, as tornam muito mais reais!

As cidades são grande o suficiente para que sejam autossustentáveis. Apesar de termos uma casa, não dependemos dela; apesar de termos uma cidade, não dependemos dela. Não temos pressa de nos movimentarmos, assim as vias de transporte nas cidades são trilhas para caminharmos, a pé ou numa máquina de andar. A informação viaja rápido o suficiente pelo globo, do modo que podemos nos deslocar apenas com a energia de nosso próprio corpo: nossos músculos são a força motriz das máquinas de andar. Na viagem entre cidades, sustentamo-nos com o que o ecossistema local tem a nos oferecer, de modo que nossa bagagem carrega apenas o necessário para emergências. Optamos por utilizar energia em larga escala para projetos mais ousados, como a exploração do sistema planetário do qual fazemos parte. Também a utilizamos em máquina de transporte massiva, para o comércio entre as cidades fluir. Alguns a utilizam para viajar entre as cidades também, porém, confesso, a maioria preferimos voar como as aves!

É possível decolar e pousar de qualquer chão ou árvore. Contudo, temos portos especialmente preparados que tornam tudo mais simples. Além disso, deixo minhas asas exoesqueléticas à disposição de outros enquanto não a utilizo. Hoje, entrementes, planejando levar minha filha para seu primeiro voo, pedi que a mantivessem na copa aeroportuária para nós.

– Não está com medo?

– Um pouquinho, papai. Acho que podíamos deixar para outro dia…

– Ora, filha. Não podemos nos privar da chance de expandir nossa mente! Quando o dia terminar, tenho certeza que você ficará orgulhosa pela coragem que teve de voar agora e que permitiu você aprender tantas coisas novas! Confie em mim. Afinal, temos de descobrir o que há de mais exótico nesse Natal!

A asa exoesquelética é um equipamento desenvolvido por uma equipe liderada por um pesquisador muito excepcional. Elas se fundamentam no voo das aves e são enormes, com a altura de um adulto e envergadura de seis. Como não temos ossos leves como os seres voadores, precisamos compensar o excesso de massa com uma área proporcionalmente maior de asas para garantir a sustentação necessária. O que tornou o projeto viável e atrativo foi a sinergia entre o usuário e a máquina: esta apenas diminui o esforço que eu preciso fazer para bater as asas e voar. Isso diminui a demanda energética da asa exoesquelética, tornando suficiente a energia coletada por suas células solares. Além do mais, o prazer de voar com a força dos meus músculos e o controle fabuloso do voo em si são libertadores! Sou apaixonado por voar… por isso, mantenho meu corpo em boa forma e saúde, de modo que posso dar-me ao luxo de bater asas maiores que a maioria. Isso me possibilita levar um acompanhamento em meus passeios. Vestimos roupa, nesse caso, para prender um corpo ao outro, por segurança. Depois disso, eu visto minhas asas, começo a batê-las enquanto desenvolvo um trote e antes de a copa acabar, já me sustento no ar!

– Papaaaaaiiiiiii…

– Pode abrir os olhos agora!

– Nossa! Estamos voando! Eu estou voando! Papai, você está me vendo? Eu estou voando! Que delícia!

O sol nascente estava um pouco acima do horizonte, às nossas costas. A floresta vista por cima de todas as copas é um mar de tons verdes, com textura evidenciada pelas intensas sombras que a luz oblíqua provoca. O céu nos presenteia com seu anil-purpúreo, límpido e sem intensas movimentação atmosféricas. Inesperadamente, fomos ultrapassados por um cardume de pássaros migratórios e o deslumbramento de minha filha devia ser sentido até por sua mãe, à distância, tamanho foi. Quando voo sozinho, prefiro fazê-lo mais alto no céu, pois consigo planar por distâncias maiores; o voo baixo, porém, é muito mais rico em detalhes. Um pequeno presente de Natal para minha filha.

– Você não vai cansar, papai? Vai demorar muito? Queria ficar o dia inteiro voando!

– Não cansarei voando daqui até a Beira da Floresta. Mas, se tivesse que bater asas o dia inteiro, acho que ficaria completamente exausto! Voltaremos voando também, e poderemos fazer alguns rodopios a mais. Veja, lá está o maior rio de nossa floresta. Não é lindo? E logo depois dele está a copa aeroportuária onde desceremos.

O pouso é mais difícil que a decolagem. É um tanto quanto sutil saber a força certa à altura correta para que o pouso não seja uma queda. O truque é fazer um rasante finalizado com uma leve subida de modo que o ponto mais alto dela, quando a velocidade será nula, seja próximo do piso de pouso. –nos e guardamos a asa para nossa volta. Ao descermos daquela copa, estávamos a uma curta distância da maior feira de Natal das redondezas. Comemos algumas frutas que encontramos em alguns desvios da trilha principal. As árvores aqui têm as copas densas, coando a luz do dia e iluminando sem agredir a pele ou os olhos. As conversas são entrecortadas pela intromissão dos cantos dos animais e das folhas cochichando ao vento. E também aqui, no ar, a melodia da fogo-celestial presenteia nosso espírito. Esse ano são tantos artesãos novos que as barracas esparramaram-se para até depois da floresta, onde o sol reina imperioso.

– Venha, filha! Vamos começar por aquelas barracas ao sol. Acho que mais tarde o calor tornará o passeio por elas insuportável.

De todas as novidades, a que mais surpreendeu minha filha foi um conjunto de diversos quebra-cabeças feitos de madeira. A artesã jurou-lhe serem desafios inéditos, nunca antes enfrentados por nenhuma alma daquele sistema solar! Além do fino acabamento que tornavam aquelas peças uma obra de arte por si só, o que realmente cativou minha menina e deixou seus olhos com um brilho intenso de fascinação foi a descoberta da possibilidade de problemas inéditos serem propostos.

– O que realmente me deixa intrigada, artesã, é como você prova que seu quebra-cabeça tem uma solução?

– Ora, princesa, tem uma maneira muito simples e fácil: começar pelo final. Veja este, por exemplo, em que você precisa montar um cubo com essas pequenas peças. Eu preciso apenas cortar o cubo nas peças que o comporão.

– Muito esperta, a senhora! Mas, dependendo de como cortar o cubo, o quebra-cabeça pode ser mais ou menos difícil…

– Exato. E aí é que entra minha experiência e criatividade, para escolher maneiras inusitadas de cortar o cubo e fazer você e seu pai realmente quebrarem a cabeça. Há uma segunda classe de problemas, mais complexos de se produzir. Primeiro, eu proponho o objetivo do quebra-cabeça a mim mesma. Podemos usar o mesmo exemplo de se montar o cubo. Mas, ao invés de cortar um cubo pronto, eu projeto as características do desafio. Digamos, existirá apenas uma solução? Às vezes o quebra-cabeça pode ter mais de uma solução, igualmente válidas. Depois, quantos graus de liberdade o brinquedo terá? Quanto mais, maior a dificuldade.

– E a senhora não produz quebra-cabeças sem solução?

– Ora, ora, boa pergunta! Às vezes eu enfrento quebra-cabeças no meu trabalho e quando não dou jeito de resolvê-lo, eu crio uma versão análoga, digital ou em madeira, e distribuo para todos que encontro. Alguns provam que ele tem ou não solução, outros simplesmente os resolvem. Uma dada vez, um senhor provou-me um problema não ter solução e eu cri; imagine minha surpresa quando a filha dele apareceu em minha casa com a resposta!

– Papai, papai, papai, disse-me puxando para baixo, vamos comprar esses quebra-cabeças? Vamos, vamos, vamos?

– Bom, acho que sua mãe e todos lá em casa passaremos um bom Natal resolvendo desafios inéditos! Será diversão garantida por um bom tempo. Quanta energia a senhora utilizou para fazê-los, perguntei à artesã.

– Foram 3.452 unidades energéticas, senhor.

– Certo, aqui estão 3.452 unidades monetárias. Muito obrigado! – Eu que agradeço. Boa sorte, minha princesa.

– Obrigada! Papai, minha filha virou-se para mim, por que você perguntou sobre energia ao invés de quanto custa?

Expliquei-lhe, enquanto voltávamos à copa aeroportuária, depois de um dia extenuante visitando cada barraca e conhecendo suas novidades, que é uma mania minha. Depois do Colapso Financeiro Mundial, todos adotaram o sistema monetário com lastro em energia. Dado que ainda não conseguimos criar algo a partir do nada, mas apenas transformar energia ou matéria, não faz sentido existir mais dinheiro do que riquezas no mundo. O lastro em energia garante esse balanço, sem o qual nenhuma civilização perdura por mais do que algumas poucas milhares de corridas espaciais do planeta. Essa simples noção, quando impregnada na mente de todos os habitantes do planeta, traz uma consciência holística muito poderosa. O lixo passa a ter valor, pois a riqueza contabiliza ainda está nele.

– Não sei se entendi…

– Não tem problema, querida. Podemos continuar a conversa em outro dia. Vamos procurar um local para pernoitarmos? Voar a essa hora não terá tanta graça quanto à luz do dia.

Depois de termos nos estabelecidos no quarto de uma estalagem, assim que fecho os olhos para sonhar, minha filha faz as últimas perguntas da noite:

– Papai, é possível dar um presente de Natal que não se possa comprar?

– Eu não sei… balancei a cabeça tentando adivinhar seus pensamentos. Acho que sim, por quê?

– É que então eu adorei o presente que você me deu hoje! Passarmos um dia todo juntos, voar, expandir meus conhecimentos, vencer meu medo e aprender o desconhecido… Nunca pensei que o Natal pudesse ser tão bom!

Fiquei tão surpreso com tamanho contentamento e sublimação que balbuciei uma tentativa de resposta. Tão surpreendentemente quanto o ímpeto daquelas palavras, minha filha mudou rapidamente de assunto, mostrando o quão veloz sua mente é:

– Papai, na escola eu aprendi que o nosso planeta já teve um nome… Eu não lembro qual. Quem deu um nome para ele?

– Essa é uma boa pergunta, filha – respondi, mais calmo e controlado. Os registros arqueológicos mais antigos que temos indicam que a suposta civilização que viveu nesse mundo antes de nós, a quem denominamos humanos, o chamavam de… Terra.

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