Conto de Natal #3

O Dia Presente

por Andrey Bugarin

Conto Andrey - Imagem Azul

 

O som das cordas de tripa da ave fogo-celestial revestidas de aço, amplificado pela caixa acústica da madeira de um único galho da árvore pauis-do-sul, formava uma melodia sublime para aqueles que a quisessem escutar. Nessa época do ciclo planetário, nossa sociedade aceitava de bom grado a herança cultural que, de tão antiga, já não havia quem precisasse sua origem. Quiçá a aceitemos pelo estado sublime que provoca na alma da maioria de nossos seres.

A regra é deixar-se abraçar por esses Espíritos que brincam por entre nossas florestas e invadem nossas casas, contaminando-nos em seus abraços a abraçarmos os nossos. Dizem as lendas que os mais antigos contam que a sublime alegria sem causa espalha-se como uma epidemia através dos abraços, posto que um ser contaminado contamina outro, ao abraçá-lo. Essa é sua forma de transmissão. Cientistas argumentam ser um vírus mais anterior que o período pré-Cognitivo, enquanto os xamãs afirmam ser a expressão máxima de nosso planeta agradecendo o respeito mútuo. Eu acredito que de alguma forma em nossa cultura, quer seja pelas informações de nosso ácido tezoxitribinucélico, quer seja pela sua perpetuação através dos ensinamentos orais e práticos, de alguma forma nossa cultura cria essa consciência onisciente que envolve a todos, ou a maioria. Somente quando as cidades-aldeias celebram o Natal, a fogo-celestial revive através de suas tripas em música! Elas sempre fazem seus ninhos na pauis-do-sul e por isso, quando uma dessas aves deixam de cantar, o galho de seu ninho é manufaturado em caixa acústica e a música da ave continua permeando o nosso mundo, tão bela quanto era em vida. A comunhão perfeita da ave com a madeira remanesce e o regozijo é pleno!

– Papai, perguntou minha filha caçula, porque todos compram o que não precisam no Natal?

– Como nós estamos indo fazer exatamente agora, minha filha? Respondi-lhe enquanto encostava a porta e saíamos para caminhar até a feira. Nessa época, diversas bancas novas eram montadas com os mais exóticos produtos.

– Sim, papai. Nosso planeta não nos agradece sempre que ele termina vivo mais uma corrida espacial em torno do nosso sol? Se comprarmos o que não precisamos, não mataremos nosso planeta? Eu não quero que ele fique triste…

Entendi a preocupação de minha filha ao lembrar-me dos temas que ela estava estudando no centro educacional. História Ancestral. Houve um período que nossos antepassados quase mataram nosso planeta por pensarem que seus recursos eram infinitos, infindáveis! De fato, interagimos com o planeta apenas transformando sua matéria-prima em outra. O único problema disso é a simples consequência de que chegaria o dia em que teríamos transformado toda uma classe de matéria-prima em insumos. A nova matéria-prima, então, seria o lixo produzido com tantos produtos. Precisaríamos aprender a transformar o lixo. Contudo, o ponto de equilíbrio de todos os ecossistemas teria sido alterado abruptamente e colapsariam. Estudiosos apontaram que levariam milhares de corridas espaciais até um novo ponto de equilíbrio ser alcançado para sustentar formas de vida complexas novamente. Dizem, inclusive, que isso já ocorreu no passado remoto do planeta. Escondidas nas entranhas do planeta estão evidências de que uma espécie capaz de se organizar socialmente já viveu em quase todas as terras desse planeta…

– Ora, filhinha, respondi-lhe enquanto caminhávamos, é um costume saudável para todos não consumirmos mais do que precisamos. Abrimos uma exceção no Natal por dois motivos bem simples: primeiro, mesmos os excessos do Natal não são suficientes para esgotar as reservas do planeta, dado que não somos uma população tão numerosa assim; segundo, esses excessos trazem a possibilidade do diferente! Existem um sem-número de artesãos sazonais que produzem apenas para o Natal. É uma oportunidade de qualquer habitante expor suas ideias e essa variabilidade fantástica possibilita avanços…

– Papai, ela me interrompeu, o que é sazonal?

Dei-me conta da empolgação de meu espírito e de como os conceitos que eu lhe explicava talvez fossem muito abstratos para sua idade.

– Sazonal, querida. É algo que ocorre apenas num determinado período do ano. Mas, você entendeu minha resposta?

– Acho que sim, papai! Então vamos logo ver o que tem de mais exótico nesse Natal!

– Vamos! Dessa vez, iremos à feira comercial da Beira da Floresta. Precisamos subir à copa aeroportuária. Você já está na idade de aprender a voar!

Nossas cidades são organizadas dentro dos próprios ecossistemas do planeta. Eu e minha família vivemos dentro de uma floresta com moderada precipitação de água. Algumas árvores milenares deixaram-nos esculpir casas em seu tronco. Esses lugares são tido como sagrados, pois promovem a comunhão entre nós e o planeta. O fluxo de energia nesses lugares é capaz de equilibrar qualquer organismo. Nem todos organismos, no entanto, precisam dos mesmos elementos e menos ainda nas mesmas intensidades. As árvores necessitam toda a precipitação de água que puderem encontrar, ao passo que nós precisamos de quantidades mais moderadas e contínua. Modificamos o ecossistema de maneira a adequar nossas necessidades pelo o que a terra oferece, sem, no entanto, negligenciar as necessidades dos outros seres. Manter o ponto de equilíbrio do mundo dessa maneira garante a nossa perpetuidade.

Sintetizamos materiais cerâmicos para compor os abrigos que nos protegem de predadores, mas utilizamos uma tecnologia que controla a opacidade das paredes. Durante o dia, o próprio sol ilumina nossas casas. À noite, a maioria de nós dormem. São poucos que precisam de luz artificial. Além do mais, há vivências que se tornam muito mais interessante à luz natural da noite. As estórias para dormir que contamos a nossos filhos não são pré-fabricadas por outra mente e gravadas para todos; preferimos utilizar a biolumiscência dos animais para desvendar mistérios mais complexos. As estórias de dormir, sem luz para ler, são contadas sempre a partir da imaginação vívida das mães e pais. As mudanças, sejam propositadas ou por esquecimento, as tornam muito mais reais!

As cidades são grande o suficiente para que sejam autossustentáveis. Apesar de termos uma casa, não dependemos dela; apesar de termos uma cidade, não dependemos dela. Não temos pressa de nos movimentarmos, assim as vias de transporte nas cidades são trilhas para caminharmos, a pé ou numa máquina de andar. A informação viaja rápido o suficiente pelo globo, do modo que podemos nos deslocar apenas com a energia de nosso próprio corpo: nossos músculos são a força motriz das máquinas de andar. Na viagem entre cidades, sustentamo-nos com o que o ecossistema local tem a nos oferecer, de modo que nossa bagagem carrega apenas o necessário para emergências. Optamos por utilizar energia em larga escala para projetos mais ousados, como a exploração do sistema planetário do qual fazemos parte. Também a utilizamos em máquina de transporte massiva, para o comércio entre as cidades fluir. Alguns a utilizam para viajar entre as cidades também, porém, confesso, a maioria preferimos voar como as aves!

É possível decolar e pousar de qualquer chão ou árvore. Contudo, temos portos especialmente preparados que tornam tudo mais simples. Além disso, deixo minhas asas exoesqueléticas à disposição de outros enquanto não a utilizo. Hoje, entrementes, planejando levar minha filha para seu primeiro voo, pedi que a mantivessem na copa aeroportuária para nós.

– Não está com medo?

– Um pouquinho, papai. Acho que podíamos deixar para outro dia…

– Ora, filha. Não podemos nos privar da chance de expandir nossa mente! Quando o dia terminar, tenho certeza que você ficará orgulhosa pela coragem que teve de voar agora e que permitiu você aprender tantas coisas novas! Confie em mim. Afinal, temos de descobrir o que há de mais exótico nesse Natal!

A asa exoesquelética é um equipamento desenvolvido por uma equipe liderada por um pesquisador muito excepcional. Elas se fundamentam no voo das aves e são enormes, com a altura de um adulto e envergadura de seis. Como não temos ossos leves como os seres voadores, precisamos compensar o excesso de massa com uma área proporcionalmente maior de asas para garantir a sustentação necessária. O que tornou o projeto viável e atrativo foi a sinergia entre o usuário e a máquina: esta apenas diminui o esforço que eu preciso fazer para bater as asas e voar. Isso diminui a demanda energética da asa exoesquelética, tornando suficiente a energia coletada por suas células solares. Além do mais, o prazer de voar com a força dos meus músculos e o controle fabuloso do voo em si são libertadores! Sou apaixonado por voar… por isso, mantenho meu corpo em boa forma e saúde, de modo que posso dar-me ao luxo de bater asas maiores que a maioria. Isso me possibilita levar um acompanhamento em meus passeios. Vestimos roupa, nesse caso, para prender um corpo ao outro, por segurança. Depois disso, eu visto minhas asas, começo a batê-las enquanto desenvolvo um trote e antes de a copa acabar, já me sustento no ar!

– Papaaaaaiiiiiii…

– Pode abrir os olhos agora!

– Nossa! Estamos voando! Eu estou voando! Papai, você está me vendo? Eu estou voando! Que delícia!

O sol nascente estava um pouco acima do horizonte, às nossas costas. A floresta vista por cima de todas as copas é um mar de tons verdes, com textura evidenciada pelas intensas sombras que a luz oblíqua provoca. O céu nos presenteia com seu anil-purpúreo, límpido e sem intensas movimentação atmosféricas. Inesperadamente, fomos ultrapassados por um cardume de pássaros migratórios e o deslumbramento de minha filha devia ser sentido até por sua mãe, à distância, tamanho foi. Quando voo sozinho, prefiro fazê-lo mais alto no céu, pois consigo planar por distâncias maiores; o voo baixo, porém, é muito mais rico em detalhes. Um pequeno presente de Natal para minha filha.

– Você não vai cansar, papai? Vai demorar muito? Queria ficar o dia inteiro voando!

– Não cansarei voando daqui até a Beira da Floresta. Mas, se tivesse que bater asas o dia inteiro, acho que ficaria completamente exausto! Voltaremos voando também, e poderemos fazer alguns rodopios a mais. Veja, lá está o maior rio de nossa floresta. Não é lindo? E logo depois dele está a copa aeroportuária onde desceremos.

O pouso é mais difícil que a decolagem. É um tanto quanto sutil saber a força certa à altura correta para que o pouso não seja uma queda. O truque é fazer um rasante finalizado com uma leve subida de modo que o ponto mais alto dela, quando a velocidade será nula, seja próximo do piso de pouso. –nos e guardamos a asa para nossa volta. Ao descermos daquela copa, estávamos a uma curta distância da maior feira de Natal das redondezas. Comemos algumas frutas que encontramos em alguns desvios da trilha principal. As árvores aqui têm as copas densas, coando a luz do dia e iluminando sem agredir a pele ou os olhos. As conversas são entrecortadas pela intromissão dos cantos dos animais e das folhas cochichando ao vento. E também aqui, no ar, a melodia da fogo-celestial presenteia nosso espírito. Esse ano são tantos artesãos novos que as barracas esparramaram-se para até depois da floresta, onde o sol reina imperioso.

– Venha, filha! Vamos começar por aquelas barracas ao sol. Acho que mais tarde o calor tornará o passeio por elas insuportável.

De todas as novidades, a que mais surpreendeu minha filha foi um conjunto de diversos quebra-cabeças feitos de madeira. A artesã jurou-lhe serem desafios inéditos, nunca antes enfrentados por nenhuma alma daquele sistema solar! Além do fino acabamento que tornavam aquelas peças uma obra de arte por si só, o que realmente cativou minha menina e deixou seus olhos com um brilho intenso de fascinação foi a descoberta da possibilidade de problemas inéditos serem propostos.

– O que realmente me deixa intrigada, artesã, é como você prova que seu quebra-cabeça tem uma solução?

– Ora, princesa, tem uma maneira muito simples e fácil: começar pelo final. Veja este, por exemplo, em que você precisa montar um cubo com essas pequenas peças. Eu preciso apenas cortar o cubo nas peças que o comporão.

– Muito esperta, a senhora! Mas, dependendo de como cortar o cubo, o quebra-cabeça pode ser mais ou menos difícil…

– Exato. E aí é que entra minha experiência e criatividade, para escolher maneiras inusitadas de cortar o cubo e fazer você e seu pai realmente quebrarem a cabeça. Há uma segunda classe de problemas, mais complexos de se produzir. Primeiro, eu proponho o objetivo do quebra-cabeça a mim mesma. Podemos usar o mesmo exemplo de se montar o cubo. Mas, ao invés de cortar um cubo pronto, eu projeto as características do desafio. Digamos, existirá apenas uma solução? Às vezes o quebra-cabeça pode ter mais de uma solução, igualmente válidas. Depois, quantos graus de liberdade o brinquedo terá? Quanto mais, maior a dificuldade.

– E a senhora não produz quebra-cabeças sem solução?

– Ora, ora, boa pergunta! Às vezes eu enfrento quebra-cabeças no meu trabalho e quando não dou jeito de resolvê-lo, eu crio uma versão análoga, digital ou em madeira, e distribuo para todos que encontro. Alguns provam que ele tem ou não solução, outros simplesmente os resolvem. Uma dada vez, um senhor provou-me um problema não ter solução e eu cri; imagine minha surpresa quando a filha dele apareceu em minha casa com a resposta!

– Papai, papai, papai, disse-me puxando para baixo, vamos comprar esses quebra-cabeças? Vamos, vamos, vamos?

– Bom, acho que sua mãe e todos lá em casa passaremos um bom Natal resolvendo desafios inéditos! Será diversão garantida por um bom tempo. Quanta energia a senhora utilizou para fazê-los, perguntei à artesã.

– Foram 3.452 unidades energéticas, senhor.

– Certo, aqui estão 3.452 unidades monetárias. Muito obrigado! – Eu que agradeço. Boa sorte, minha princesa.

– Obrigada! Papai, minha filha virou-se para mim, por que você perguntou sobre energia ao invés de quanto custa?

Expliquei-lhe, enquanto voltávamos à copa aeroportuária, depois de um dia extenuante visitando cada barraca e conhecendo suas novidades, que é uma mania minha. Depois do Colapso Financeiro Mundial, todos adotaram o sistema monetário com lastro em energia. Dado que ainda não conseguimos criar algo a partir do nada, mas apenas transformar energia ou matéria, não faz sentido existir mais dinheiro do que riquezas no mundo. O lastro em energia garante esse balanço, sem o qual nenhuma civilização perdura por mais do que algumas poucas milhares de corridas espaciais do planeta. Essa simples noção, quando impregnada na mente de todos os habitantes do planeta, traz uma consciência holística muito poderosa. O lixo passa a ter valor, pois a riqueza contabiliza ainda está nele.

– Não sei se entendi…

– Não tem problema, querida. Podemos continuar a conversa em outro dia. Vamos procurar um local para pernoitarmos? Voar a essa hora não terá tanta graça quanto à luz do dia.

Depois de termos nos estabelecidos no quarto de uma estalagem, assim que fecho os olhos para sonhar, minha filha faz as últimas perguntas da noite:

– Papai, é possível dar um presente de Natal que não se possa comprar?

– Eu não sei… balancei a cabeça tentando adivinhar seus pensamentos. Acho que sim, por quê?

– É que então eu adorei o presente que você me deu hoje! Passarmos um dia todo juntos, voar, expandir meus conhecimentos, vencer meu medo e aprender o desconhecido… Nunca pensei que o Natal pudesse ser tão bom!

Fiquei tão surpreso com tamanho contentamento e sublimação que balbuciei uma tentativa de resposta. Tão surpreendentemente quanto o ímpeto daquelas palavras, minha filha mudou rapidamente de assunto, mostrando o quão veloz sua mente é:

– Papai, na escola eu aprendi que o nosso planeta já teve um nome… Eu não lembro qual. Quem deu um nome para ele?

– Essa é uma boa pergunta, filha – respondi, mais calmo e controlado. Os registros arqueológicos mais antigos que temos indicam que a suposta civilização que viveu nesse mundo antes de nós, a quem denominamos humanos, o chamavam de… Terra.

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