Contos de Natal #2

A CIDADE DO PAPAI NOEL

por Hamilton Toledo

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 Francisco é um menino pobre que sempre acreditou que o Papai Noel tivesse uma cidade só dele. O menino adorava o natal, ainda mais que ele tinha natal até no nome. Ele era pobre, mas era feliz, era um sonhador, dizia que quando crescesse queria ser cientista ou biomédico. Era abusado. Tinha uma alegria contagiante, era um líder nato. Nas brincadeiras na rua com os amiguinhos estava sempre a frente.

Não tinha as melhores roupas, tinha apenas um par de tênis. Mas ele não se importava. Nunca passou fome, pois apesar das dificuldades, seu pai sempre trabalhou e conseguia colocar a comida na mesa. A casa apesar de humilde era própria, construída com muito sacrifício. Não sabia o que era luxo.

Inteligente e perspicaz, o caçula era o melhor da sua classe na escola. Era um aluno nota 10, um verdadeiro ‘nerd’, um gênio. Na escola todos gostavam dele. Gostava de ajudar os professores, apagando uma lousa, distribuindo os textos. Todos queriam jogar no time dele. Era craque de bola. Todos queriam sentar ao seu lado, e até tentar colar dele nos dias de prova.

Quando tinha muita vontade de comprar alguma coisa, fazia uns bicos no bairro, ajudava na feira, auxiliava no pacote do supermercado, ajudava as senhoras nas compras, enfim, sempre dava um jeito de arrumar os trocados que precisava. Tinha um forte senso de justiça e respeitava sempre os mais velhos. Adorava ficar ouvindo as histórias de sua vó.

Francisco comentava sempre que o seu maior desejo era visitar a cidade do Papai Noel. Seu pai, com muita paciência, tentava lhe explicar, menino eu já lhe disse que não existe a tal cidade, onde foi que você tirou essa ideia. Seus amiguinhos do bairro e da escola tiravam uma da sua cara, quando ele vinha falando que um dia iria conhecer a cidade do bom velhinho.

Alguns anos se passaram, alguns natais se foram, o menino estava crescendo, mas o gosto pela melhor época do ano continuava cada vez mais viva. Todo Natal ele queria participar de uma maneira mais ativa. Um ano ele chegou ajudar um Papai Noel a entregar os presentes. Outro ano montou cestas de natal junto com o pessoal da igreja, para distribuir para as famílias mais carentes. Teve ano, que participou junto com um grupo de teatro, que ia ao Hospital do Câncer alegrar as crianças que estavam internadas. E no último ano, ia até os correios, pegava as cartas das crianças que pediam brinquedos e convencia as pessoas por toda a cidade a colaborar.

O espírito natalino seguia com ele o ano todo. Ajudava os irmãos mais velhos na lição de casa. Não gostava de briga. Quando via alguma, passava longe. Afinal, ele era um garoto franzino, braços e pernas finas. Estava sempre apaziguando a briga dos irmãos. Procurava se dar bem com todo mundo. Evitava falar mal das pessoas. Sempre tentava se colocar no lugar dos outros antes de criticar.

Tinha um temperamento tranquilo, tinha um defeito que era falar demais. E quem fala de mais, ouve de menos. Mas tudo bem, não dá pra ser perfeito. Suas qualidades eram muitas. Seus pais não tinham do que se queixar. Ele era um filho exemplar, o orgulho da casa. Outro defeito era ser sonhador demais. E quem sonha demais, não tem os pés no chão.

Além de jogar bola, Francisco era encantado pelos livros. E não só gostava de ler, como também de escrever. Suas redações eram as melhores da escola, onde ganhava todo ano o concurso. Ganhou até o concurso da cidade. Dizia que além de cientista, seria também escritor. Criava diversas estórias, era fascinado por contos. Frequentava a biblioteca da escola todos os dias. Lia um livro por semana. Seus preferidos eram de romance e ficção.

Um dia, numa semana que antecede o natal, ele estava com seus pais, em uma grande loja no centro da cidade, fazendo compras. De novo, ele veio com aquela história que seu maior sonho era conhecer a cidade do Papai Noel. O que eles não perceberam, é que bem atrás deles, ouvindo tudo, estava o dono da loja, um homem gordo que tinha uma barba comprida. E antes que o pai fosse repreender o menino, o homem foi logo dizendo:

– Meu caro rapaz, não pude deixar de ouvir a sua conversa e fiquei muito sensibilizado. Posso lhe garantir que a tal cidade existe. Fica no Polo Norte. Ela se chama Rovaniemi, capital da Lapônia, na Finlândia. É uma cidade com mil habitantes, todos ajudantes do Papai Noel.

Os olhos de Francisco brilharam intensamente, enquanto o homem falava ele permaneceu estático, suas mãos começaram a suar frio, um leve tremor percorreu seu corpo, o coração começou a bater mais forte e a respiração ficou ofegante. Ele piscou os olhos várias vezes, para se certificar que aquilo era real. A voz daquele homem era como um bálsamo para seus ouvidos. Tentou falar alguma coisa, mas a voz lhe faltou.

– Se você quiser, posso levá-lo até lá nesse Natal. São poucas as pessoas convidadas no mundo inteiro, ganhei os convites esse ano, vou com minha família e ainda tenho um convite sobrando. Isso se seus pais deixarem, é claro.

De repente, a voz de Francisco saiu e ele começou a implorar para seu pai que o deixasse ir. Seu pai e sua mãe estavam paralisados, não acreditavam no que aquele homem estava falando. Onde já se viu falar que o Papai Noel tem cidade? Só faltava essa. Menino, onde você está com a cabeça? Querer viajar para um lugar tão longe, sem saber se a tal cidade existe. De jeito nenhum, não vai mesmo.

Os pais dele estavam decididos a não deixar. Mas o garoto estava mais que decidido a ir, deixasse os seus pais ou não, ele iria, mesmo que escondido. Voltou na loja no dia seguinte e falou com o homem que seus pais tinham deixado. O homem achou meio estranho, mas vendo a felicidade do rapaz, concordou. Combinaram o dia da partida.

A partida seria no dia 22 de dezembro. No horário combinado, Francisco aparece na loja. Com camiseta e short surrados e chinelo nos pés. A sua mala era uma sacolinha de supermercado. Dentro, tinha outra camiseta, short e cueca. O Sr. José olhou e ficou com pena. ‘Vamos rapaz, vamos passar em casa que preciso lhe arranjar roupas apropriadas’. Chegando lá, o homem lhe deu roupas de seu filho para ele se vestir. Arranjou-lhe uma mala de viajem, com roupas para suportar o inverno rigoroso da Finlândia. Entregou também seu passaporte. Francisco olhou o passaporte, que tinha sua foto e sua assinatura. Mas como? Porém, ele estava tão feliz que decidiu aceitar como se aquilo fosse normal. Tudo pronto para a viagem, foram para o aeroporto.

O Sr. José, sua esposa, seus dois filhos e Francisco partiram para Helsinki, com voo de muitas horas. Ele nunca tinha viajado de avião, ficou encantado, ficou a viajem toda olhando as nuvens pela janela. Chegando lá, eles estavam todos de casacos de pele, gorro e luvas. Os termômetros marcavam vinte graus negativos. A neve cobria as casas, os prédios, as ruas, calçadas e jardins. Francisco nunca tinha visto neve, correu para calçada, abaixou, pegou a neve e fez uma bola e atirou para longe. Um ônibus já estava esperando, com destino a Rovaniemi. O ônibus lembrava muito um caminhão do corpo de bombeiros, todo vermelho e cheio de detalhes. Duas cabeças de renas estavam entalhadas na frente, como se elas é que fossem puxar. Tinha ônibus a cada quinze minutos, mas eles tinham que pegar o certo, conforme o número que estava no convite. Eles também deveriam voltar com o mesmo. O engraçado é que o motorista era um Papai Noel anão. Ônibus cheio e lá se foram eles.

Enquanto isso, os pais de Francisco, quando acordaram e perceberam que o menino não estava, entraram em desespero. Onde será que ele tinha se metido? Começaram uma busca pela redondeza, na casa de parentes, nas casas dos amigos e nada. Começaram a ficar preocupados e a pensar besteira. Foram em hospitais e por último fizeram ocorrência na polícia. Policiais reviraram a cidade, nada. Foi então que o pai de Francisco virou para esposa e lhe disse. Eu sei onde esse menino foi. Foi para a tal cidade.

Do outro lado, Francisco se deliciava na viajem de ônibus, olhando aquela paisagem toda coberta pela neve, algumas horas depois chegaram a uma cidade, que era cercada por um muro alto de cinco metros a volta toda. Havia um portal gigante para entrar na cidade. Muro e portal também estavam cobertos pela neve. Formou-se uma fila enorme de ônibus na entrada. O portal era branco e vermelho, feito de ferro trabalhado em estilo gótico, enfeitado com luzes coloridas. Em cima, um arco íris com suas cores cintilantes eram deslumbrantes. Parecia o portal do Céu. Entraram e logo visualizaram a cidade, no meio de muitas árvores que estavam brancas com a neve. A cidade tinha o formato de uma árvore de Natal. Não havia casas. Eram prédios todos iguais, com três andares acima e três andares no subterrâneo. Os moradores moravam em cima e os visitantes embaixo. Eram mil moradores que trabalhavam ajudando o Papai Noel. Anualmente eram convidados igualmente mil visitantes, de toda a parte.

Logo perceberam que os moradores, eram todos anões, de várias partes do mundo, e se vestiam de Papai Noel. Francisco imediatamente lembrou-se do filme: A Fantástica Fábrica de Chocolate. A cidade do Papai Noel também era fantástica. Nas ruas, árvores de Natal, enfeitadas com luzes, bolas, Papais Noéis e sinos, plantadas na frente dos prédios. Tudo lembrava o Natal. Os telhados dos prédios também eram enfeitados, de onde pendiam luzes coloridas. Havia luzes em todos os lugares. A cidade era incrivelmente iluminada. Tudo parecia ter saído de um conto de fadas. Não parecia real. Era muito bom para ser verdade. Francisco estava boquiaberto, paralisado. Nunca tinha visto nada igual. Tudo era impressionante. Mas ele ainda não tinha visto o melhor. Ele nem tinha percebido que o Sr. José não estava mais com eles.

O guia, um anão japonês muito simpático, apresentou seus aposentos, eles foram convidados a conhecer a fábrica do Papai Noel. Francisco ficou surpreso. O guia lhe disse então: ‘Como você acha que o Papai Noel consegue os brinquedos? Eles são todos produzidos na sua fábrica’. Saíram da cidade em direção à fábrica, Francisco, a esposa do Sr. José e seus dois filhos. Foi aí que o garoto perguntou à Maria onde estava o Sr. José. A mulher respondeu que ele tinha ido à frente. Quando ainda estavam longe, avistaram como se fosse o castelo de Hogwarts. Quando adentraram o castelo, viram que tudo era muito moderno, com paredes e teto coloridos e tudo com enfeites natalinos. Foram direto para a sala das máquinas. O guia explicou que tudo começa quando Papais Noéis do mundo inteiro visitam os correios na semana do Natal e selecionam as cartas endereçadas ao Papai Noel. Trazem as cartas para cá, os envelopes são depositados aqui na máquina, que identifica pelo endereço as casas com chaminé, pois somente serão atendidas as crianças cujas casas têm chaminé, único meio que o Papai Noel tem para entrar nas casas à meia noite, quando as mesmas estão fechadas.

Francisco na hora percebeu o motivo pelo qual suas cartas nunca foram atendidas, achava isso injusto, pois as crianças pobres não tem uma chaminé, assim entendeu porque só as crianças ricas recebiam presentes. Ele tinha que falar com o Papai Noel e convencê-lo que isso tinha que mudar.

O guia prosseguiu explicando o funcionando da máquina. Após separados os envelopes que seriam atendidos, os mesmos são abertos e as cartas são escaneadas, sendo assim identificados os brinquedos solicitados. A máquina era bem comprida e toda fechada e o guia apontou onde eram fabricados os brinquedos. Os brinquedos prontos seguiam por uma esteira e entravam em uma cabine para serem empacotados, embrulhados e identificados os destinatários. Na fase final eram separados em diversas esteiras conforme a região do globo, na ponta ficavam centenas de anões ajudantes que separavam de acordo com cada país. O Papai Noel responsável para a entrega em cada país, com ajuda de outras centenas de anões, carregavam os caminhões que levavam até o aeroporto de Helsinki.

Francisco interrompeu o guia e perguntou se o Papai Noel não tinha renas voadoras para fazer a entrega dos presentes. O guia olhou bem para o garoto e lhe disse: ‘Você anda assistindo muitos filmes e lendo muitas estórias. Meu caro, as renas voadoras não existem. A realidade é bem diferente’.

Agora vamos ao ponto alto da visita, disse o guia. Vamos conhecer o responsável por tudo aqui nesta cidade. Os olhos de Francisco brilharam mais uma vez. Estava prestes a conhecer o verdadeiro Papai Noel. O guia chegou a uma sala com uma grande porta vermelha. Entraram em um salão enorme, com uma decoração impecável, com muitos lustres de cristal e castiçais de ouro. Os móveis tinham filetes de acabamento em ouro. Tapetes persas no chão e no centro uma mesa gigante. Atravessaram o salão e foram direto ao escritório no fundo. Chegando, bateram na porta que se abriu rapidamente. O Papai Noel saiu, revelando seus trajes típicos e sua inconfundível barba branca. Francisco correu para abraçá-lo, muito emocionado. Agora seu sonho estava realizado por completo.

O guia virou para eles e falou: ‘Apresento-lhes o verdadeiro Papai Noel, Santa Claus’. O velhinho virou para Francisco e perguntou: ‘O que você gostaria de ganhar?’ O garoto lhe disse: ‘O meu maior presente era conhecer a cidade do Papai Noel e hoje eu estou realizando o meu maior sonho. Mas eu tenho um pedido a fazer’. Enfiou a mão no bolso e tirou um bolo de dez cartas. ‘Essas cartas são de crianças que estão internadas no Hospital do Câncer, na ala de pacientes terminais. Elas têm dois desejos, conhecer o Papai Noel e voltar a ter uma vida normal como qualquer criança. O primeiro eu entrego para o senhor. O segundo, fiz um pedido do fundo do meu coração para Jesus, que se possível ajudasse essas crianças’. O Papai Noel olhou para o menino e declarou: ‘Seu pedido é uma ordem’.

Terminada a visita, despediram-se e voltaram aos seus aposentos e permaneceram ali mais dois dias, passaram o Natal na cidade e no dia seguinte reencontraram com o Sr. José. Francisco já estava com saudades da sua família. Fizeram as malas, pegaram o ônibus e partiram de volta à Helsinki. Pegaram o avião e voltaram ao Brasil.

Chegando em casa, achou estranho que sua casa agora tinha uma chaminé. Entrou e correu abraçar os seus pais que estavam na porta esperando. A casa estava cheia de brinquedos, seus irmãos brincavam como nunca. Entrou no seu quarto e em cima de sua cama, encontrou todos os brinquedos que até então tinha pedido por carta ao Papai Noel. Bicicleta, bola oficial, Play Station, patins, skate, a coleção inteira do Senhor dos Anéis e Harry Potter, DVDs, enfim, todos os seus pedidos dos anos anteriores foram atendidos, inclusive os presentes para seus irmãos e para seus amigos. Os olhos de Francisco mais uma vez encheram de lágrimas.

Ele perguntou ao pai sobre a chaminé. O pai lhe explicou que um dia depois do seu desaparecimento, apareceu um homem, que sabia onde ele estava, disse que estava bem e que voltaria depois do Natal. O homem disse que foi enviado para construir uma chaminé na casa. O pai que não entendeu nada, acreditou e autorizou.

Francisco estava muito feliz com tudo que tinha vivenciado. Mas faltava saber uma coisa. Foi até o Hospital do Câncer visitar as crianças. Chegando lá, procurou uma enfermeira que tinha se tornado uma grande amiga. Disse-lhe que queria visitar as crianças. A enfermeira respondeu, elas não estão mais aqui, você não ficou sabendo? Francisco ficou preocupado, não me diga que elas não resistiram. A enfermeira com ar alegre lhe contou: ‘Você não vai acreditar! No dia de Natal, adivinha quem veio visitá-las? Ele próprio, o Papai Noel, trouxe um monte de brinquedos para todas as crianças. As crianças que estavam no isolamento, ficaram loucas de alegria. Mesmo as que tomavam soro queriam levantar e abraçá-lo. Foi um verdadeiro milagre que aconteceu, de uma hora para outra, é como se elas não estivessem mais doentes. E você não imagina o que elas sonharam naquela noite de Natal. No sonho, elas estavam na cama, e de repente, entra um homem com barba, dizendo que estava atendo a um pedido especial que um amiguinho fizera do fundo do coração. Quando as meninas passaram em frente à recepção, onde tinha uma foto na parede, elas apontaram, foi ele. A foto era de Jesus! As crianças tiveram alta um dia depois do Natal. Os médicos incrédulos fizeram todos os exames, elas estavam curadas’.

 

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