Conto de Natal #1

“Um Natal como no Comercial de Margarina”

Por Adrianna Ribeiro

 Hoje é Natal!

Mas este será o meu primeiro Natal nesta casa. Sabe, eu nunca imaginei que minha vida fosse mudar tanto neste último ano.

Ganhei uma casa nova, e com ela, uma cama nova, muito carinho e atenção.

Sou jovem. Uma adolescente no ápice de seus dois anos de idade.

Pois é, sou uma Boxer, e meu nome é Kiki.

Quando eu era bebê, morava numa fazenda… e o tempo era pouco para tantas alegrias e diversão. Um dia, minha matilha se mudou e trocamos os campos verdes por uma casinha na cidade… tão pequenininha que quase cabia na minha pata.

Um a um os meus irmãozinhos foram embora. Cada dia aparecia uma pessoa diferente e levava um deles. Chorei muito nos primeiros dias… mas depois, a minha dona, a quem eu considero a Alfa da minha matilha (afinal é ela quem tem sempre a última palavra, né?) disse que eles estariam melhor com os novos donos.

Ué, se era pra melhor, porque eu não sempre ficava pra trás quando iam buscar um filhote? Será que era por ser grandona e desajeitada? Mas eu não tenho culpa se derrubava as visitas quando ir dar boas-vindas com um beijo (ou melhor, lambida) na cara delas.

Quando fiz aninho perdi as esperanças de ser adotada. Quem iria querer uma cadela como eu, que não era mais um bebê? Mas um dia, foram me buscar para ver a nova visita. Sai correndo que nem uma doida. Eu até que pensei em não dar boas-vindas do meu jeitinho meigo e delicado, mas a visita, uma jovem de cabelos da mesma cor do meu pelo, me aguardava agachada e com os braços abertos agitando as mãos em sua direção, como se me chamando.

Não resisti.

Saltei em cima dela, e num segundo estávamos as duas caídas no chão. De um lado, ela rindo e afagando a minha barriga, e eu, do outro, abanando o rabinho e esticando o pescoço pra ganhar carinho.

Caramba, não tinha reparado até agora que a jovem que me adotou parece comigo. Gosta de brincar, e de correr. E adora carinho. A Ruiva é a minha Alfa agora.

Isso aconteceu no início do ano. No começo, eu estranhei a nova casa e a rotina da Ruiva. Todos os cheiros eram diferentes aqui. A casa era mais viva e alegre. E eu tinha que tomar banho toda semana. Gosto de banho, mas não de perfume. Fico espirrando o dia todo, principalmente quando usam um tal de ‘Pom-Pom’.

O mais importante é que aqui, no meu novo lar, eu não tinha que dividir atenção dela com outros cães e gatos como eu fazia na minha antiga matilha. Somos, ela, eu e o Papi – o namorado da Ruiva. O Papi é muito legal. Esta semana, ele está tentando me adestrar com pipoca. E imagina se eu não gosto. Hahahaha!

Apesar de tudo ser melhor aqui, nas primeiras semanas eu tinha muito medo que alguma visita me levasse embora como tinha acontecido na minha casa antiga, mas agora, sei que este é o meu lar. Tenho uma caminha no quintal da frente da casa, de onde posso observar a rua e conversar com os outros cães, e outra que fica no chão ao lado da cama da Ruiva.

Ás vezes passo as tardes sentada ao lado do portão uivando para meus amigos caninos em papos bem divertidos. Isso quando a Ruiva não está em casa, pois aí eu só quero saber de ficar ao lado dela. Nem me importo o que ela está fazendo ou onde está. Aninho-me a seus pés e fico lá. Gosto de ficar perto dela. A minha Alfa tem uma energia boa, e está sempre fazendo carinho em mim. Toda semana, após o banho, eu tenho permissão de subir no sofá e me refestelar ao lado da Ruiva. Basta pousar a cabeça em seu colo macio que já surge aqueles dedinhos com as unhas pintadas pra me fazer cafuné.

Gente, amo muito tudo isso!

Hoje, estou numa ansiedade tremenda, pois é Natal. Não que eu saiba o que seja isso, mas a casa foi toda decorada com um monte de coisas penduradas e com barulhinhos estranhos. Tô tendo que me controlar pra não esbarrar as patinhas ou o focinho nos pingentes daquela coisa parecida com uma árvore que está no cantinho da sala. Acho que depois que todo mundo for dormir, eu posso ir lá xeretar, né?

O cheiro que vem da cozinha também é bom demais. A Vovó passou o dia na cozinha com a Ruiva preparando um monte de gulodices. Só de pensar naquele pedação de carne que colocaram no forno eu já começo a babar.

Ué, você não sabia que Boxer babava? Tolinho!

Mas como eu ia dizendo, a Ruiva e o Papi estão nervosos desde cedo. Volta e meia um deles se senta no sofá, me chama, faz um cafuné, e pede pra eu me comportar. Por que eu não sei, e eles não falam.

É óbvio que eu vou me comportar. Bom, quer dizer, isso até as visitas se sentarem no sofá. Aí, eu pulo em cima e cumprimento. Não posso ser mal-educada, posso?

A noite chegou e nada dos presentes que a Ruiva tinha falado a semana inteira. A Vovó ligou o rádio e uma música bonitinha saiu das caixas de som que ficavam ao lado do rack da sala. Tentei cantar, e meu uivo devia estar bem afinado por que todo mundo riu, bateu palmas e afagou minha cabeça, dizendo “Que bonitinha! ”.

Foi nessa hora que escutei o ronco do motor do Papi virando na esquina da rua aqui de casa. A Vovó abriu uma frestinha da cortina e espiou pela janela. Pelo sorriso dela, algo bom estava para acontecer.

Quando o ronco do motor cessou, meu pelo ficou todo em pé. Havia alguém com o Papi no carro. E tinha um cheiro esquisito, igual ao do perfume que borrifavam em mim quando eu saia do banho.

Com algo no colo, o Papi entrou em casa sorrindo e dando um beijo na Ruiva, entregou-lhe o que carregava. Esperta que só eu, sentei-me ao lado da vovó e fiquei a observar tudo. Era o meu primeiro Natal e não queria perder nem um detalhe.

Gatos mordam meu rabo cotó!

Ué, não era pra ser um dia feliz, então por que a Ruiva olhava pro troço que o Papi deu a ela e chorava. Mas antes que eu pudesse saltar pra ver o que estava rolando, a Ruiva agachou-se ao meu lado, e me mostrou o que estava no colo dela.

Era um bebê-gente. Não daqueles pequeninhos que só choram e choram. Este era maiorzinho, e já batia as palminhas e ficava de pé sobre as duas patinhas traseiras. Ao me ver, aquela coisa que nem pelo na cabeça tinha direito já foi esticando a mãozinha pra me fazer cafuné! Outra paixonite à primeira vista!

Foi aí que eu entendi tudo.Bel e Dax 03

A Ruiva tinha adotado uma criança… uma criança só pra mim! Pra correr atrás de mim, brincar comigo. Fazer carinho – eu nela e ela em mim. Brincar de cavalinho! Brincar de jogar-e-buscar o ossinho de corda.

Au! Au! Aquele era o meu presente de Natal.

E aquele Natal era o mais feliz da minha vida!

Auuuuuuu!

 

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